«A VIDA NO CAMPO»

Joel Neto

«Aos fins de semana, acordo com os velhos. Estão sentados na paragem da urbana sob a minha janela. Conversam baixinho. 

Ainda esta manhã conversavam baixinho. 

Não estão tão velhos assim. Um deles parece-me ser o Galão, esperando o filho com a carrinha para irem às vacas. O Galão ainda nem fez 60 anos- a vida é que lhe foi dura. 

O outro sim, há de ser um velhote, nunca percebi qual. Aqui só há duas espécies de pessoas acordadas às seis da manhã de um dia de fim de semana para se sentarem numa paragem de autocarro , a fumar: os lavradores e os velhos. 

– … pu mó da bezerra? – entreouço. – … é verdades…

-… o tatão do doutô na veio… que horas é?…

Chego a ter pena de que se preocupem tanto em não incomodar a vizinhança. Ainda não percebi que doença terá aquela bezerra, ademais tão persistente, embora me pareça que o veterinário não vem tantas vezes quantas devia.»

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Grande Prémio de Literatura Biográfica
  • Um livro premiado, que revela o modo de vida e as tradições da ilha de São Miguel, nos Açores.

TROCAR A CIDADE PELO CAMPO

«A vida no campo» recebeu em 2019 o Grande Prémio de Literatura Biográfica, escolhido por unanimidade pela Associação Portuguesa de Escritores. E ainda bem, porque é uma obra cuja leitura nos acalma. Afinal, a cada página, somos transportados para o ambiente verdejante e bucólico de uma das ilhas dos Açores. Um local onde se vive sem pressas, ao ritmo das estações do ano.

Se, como nós, também está a um passo de trocar o bulício do trânsito pela qualidade de vida, vai encontrar inspiração neste livro. Enfim, talvez não tenha a sorte do autor e da esposa, cujas profissões – escritor e tradutora – permitiram facilmente esta mudança. No entanto, todos sabemos que, se quisermos verdadeiramente mudar algo na nossa vida, encontramos uma forma de o fazer. Seja ir viver para o campo ou outra coisa qualquer.

Assim, com a sua escrita, Joel Neto partilha com o leitor a vivência quotidiana na ilha de São Miguel. Com efeito, um regresso às origens familiares, e aos Açores.

Neste diário, o autor descreve o desenrolar dos seus dias com a esposa Catarina e o cão Melville. Deste modo, acompanhamos o trabalho, os momentos de lazer e o cuidado com a casa e a terra. Uma propriedade da família, agora a seu cargo.

Através dos eventos da vida quotidiana, ficamos a conhecer a essência do meio rural açoriano, as suas rotinas, modos de vida e tradições.  

CONHEÇA OS AÇORES SEM SAIR DE CASA

Na observação do meio em que está inserido, Joel Neto mantém o olhar de quem veio de uma grande cidade, mas sabe apreciar o campo. Em «A vida no campo», ensina-nos, por exemplo, a distinguir um lisboeta de um açoriano, quando lhes oferecemos um café. O primeiro «atirar-se-á a ele como à última caixa de antidepressivos do deserto», enquanto o provinciano «fará um esgar, não propriamente de repulsa, mas de susto: – Não não! Bebi ao almoço. Nunca bebo café depois das seis a tarde, senão não durmo.»

Ficamos ainda a conhecer a história da típica Queijada Dona Amélia, que remonta a uma visita dos últimos reis de Portugal em 1901. Ou ainda a tradição do Dia dos Amigos, celebrado numa quinta feira de janeiro, com jantaradas e copos.

Entre as peculiaridades da ilha, relatadas pelo autor, conta-se ainda uma impressionante lista de nomes que não se encontram em mais parte nenhuma senão nas ilhas. É o caso de Olgiva, Cisbélia, Anatazita, Dilermando, Eldar, Irzelindo, Neogénio, Unerina ou Telestina. Entre muitos outros.

 «Os meus amigos de Lisboa queixam-se muito da rotina. Ainda há pouco, ao telefone, o Ricardo se lamentou. Não o percebo. Se houve coisa que eu nunca consegui ter em Lisboa foi uma rotina. Pode mesmo dizer-se que uma das motivações do meu regresso ao campo foi a possibilidade de ter uma rotina.»

Joel Neto

UM AÇORIANO NO CONTINENTE, E O REGRESSO ÀS ORIGENS

Natural dos Açores, foi no continente que Joel Neto se consagrou como um homem da escrita. Com apenas 18 anos, voou para Lisboa para estudar Relações Internacionais, no Instituto de Ciências Sociais e Políticas.

Mais tarde, já formado, em vez de se dedicar à diplomacia, optou por uma carreira como jornalista. Durante 15 anos, construiu um nome na praça. Foi editor e chefe de redação, e tomou o gosto às letras. 

Publicou livros, ganhou prémios e passou a ser escritor a tempo inteiro. Entre as suas obras mais célebres, contam-se Arquipélago, O Citroën que escrevia novelas mexicanas, Banda Sonora Para um Regresso a Casa, ou Meridiano 28.

Já com uma carreira literária bem estabelecida, em 2012 decidiu regressar à sua terra natal, onde continua a escrever.

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«A humanidade que transparece na sua quotidiana interação com as plantas, os animais, as pessoas que encontra na rua, os vizinhos, deixam de ser locais para se transfigurarem em universais.»

Revista Visão

«Quando discorre sobre a vida no campo, Joel escreve com o maravilhamento de alguém que vem de fora. Mas quando escreve sobre a cidade, as raízes campestres notam-se em cada parágrafo.»

Revista Sábado

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