Castelo de Vide

TERRA DE FRONTEIRA COM VISTA PARA ESPANHA

Em pleno Alto Alentejo, mesmo à beira de Espanha, Castelo de Vide é uma cidade simplesmente encantadora. Com efeito, estende-se por uma encosta do Parque Natural de São Mamede, e no topo ostenta um imponente castelo cujo burgo medieval ainda é habitado. Cá em baixo, no centro da cidade, existem todas as comodidades modernas e, claro, restaurantes onde se come sempre bem. Já agora, não se esqueça de provar as boleimas (recomendamos as da D. Belmira) e a cerveja artesanal Barona, feita ali ao lado em Marvão. A par disso, esta é uma cidade que homenageia os seus filhos ilustres, como é o caso de Salgueiro Maia. Sem dúvida, vale a pena reservar uma escapadinha a Castelo de Vide. Acredite, vai querer voltar.

À DESCOBERTA DO PARQUE NATURAL DE SÃO MAMEDE 

No conjunto, o território do Parque Natural de São Mamede abarca o concelho de Castelo de Vide, mas também os de Arronches, Marvão e Portalegre. Com efeito, este é o único Parque Natural do Norte Alentejano. Como símbolo, adotou a águia de Bonelli. Afinal, é uma espécie considerada rara, que nidifica nas suas escarpas.

Nesta região do Alto Alentejo, correm afluentes da baía hidrográfica dos rios Tejo e Guadiana. Inclusivamente, existem várias barragens, onde a água se acumula e contribui para o regadio. Deste modo, se visitar Castelo de Vide no verão, poderá refrescar-se na Praia Fluvial de Portagem, onde corre o rio Sever. Por outro lado, a norte também existe outra zona balnear muito agradável, na Barragem de Póvoa e Meadas.

A par disso, os adeptos do outdoor encontram em Castelo de Vide vários atrativos. Desde logo, vários percursos pedestres que, inclusivamente, percorrem uma calçada medieval.  Por exemplo, um destes percursos – o PR3 – liga Castelo de Vide a Marvão, inevitavelmente com grande altimetria. Como sabe, Marvão situa-se a 800 metros de altitude.

A par disso, destacamos ainda o PR1, um percurso circular entre Castelo de Vide e a Serra de São Paulo. Neste caso, é a cordilheira que se ergue mesmo em frente à cidade. Se reparar, no ponto mais alto da serra existe uma capela. Com efeito, é a Ermida de Nossa Senhora da Penha, construída em 1570. Lá de cima, a vista é simplesmente deslumbrante.

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À DESCOBERTA DE CASTELO DE VIDE

Para conhecer Castelo de Vide, traga calçado confortável e prepare-se para andar a pé. Afinal, a cidade tem inúmeros atrativos.

Se, como nós, ficar alojado no Hotel Sol e Serra, atravessa o bonito jardim e vai ter ao centro da cidade. Consoante a hora do dia, sente-se numa esplanada, ou entre num dos cafés ou restaurantes, para apreciar as delícias locais.

Já agora, um dos bares mais movimentados tem cerveja artesanal, a Barona, de fabrico local. Outra maravilha que não pode perder é a boleima e outros bolos secos da D. Belmira. Encontra esta casa de chá com fabrico próprio numa ruazinha perpendicular.

Ali ao lado, por trás da Câmara Municipal, está a praça D. Pedro V, com uma estátua deste rei. A par disso temos também o Posto de Turismo e a imponente Igreja Paroquial de S. João Batista, rodeada por esculturas originais.

Partindo daqui, há que explorar as ruas estreitas em redor.

Efetivamente, dentro e fora das muralhas, muitas destas casas antigas estão recuperadas e servem de habitação ou alojamento local. De facto, muitas delas têm duas portas, ao lado uma da outra. Na origem, davam acesso à loja , em baixo, e à habitação em cima.

O PASSADO JUDAICO

Na encosta que sobe para o castelo, fica a antiga Judiaria de Castelo de Vide. As ruas são estreitas, e os edifícios antigos, em tons de branco e amarelo. Muitas portas ainda mantêm o formato original, com o arco em forma de ogiva, Mais do que isso, na moldura de algumas portas ainda se vê a ranhura onde se encaixava a Mezuzah. Uma oração enrolada em papel, onde se tocava ao passar. Noutras portas, vemos inscrições na pedra, com o nome do proprietário.

Na subida pela encosta norte, desembocamos na bonita Fonte da Vila. Um largo com uma fonte ao centro, que servia de local de encontro, e de abastecimento.

A par disso, na Rua da Judiaria, está a antiga Sinagoga, que pode visitar. Um edifício do século XII onde se descobriu um tabernáculo e uma pianha. De facto, ambas as estruturas, embutidas na parede, levam a crer que se tratasse de uma sinagoga.

Com efeito, na judiaria viviam muitos artífices e comerciantes. Entre eles, tintureiros, alfaiates, carpinteiros, ferreiros ou sapateiros. Assim, algumas ruas fazem alusão a este passado. Por exemplo, a Rua da Judiaria ou a Rua Nova, onde viviam os cristãos-novos. Ou ainda a Rua do Arcário (o tesoureiro) e a Rua das Espinosas. Neste caso, uma alusão ao filósofo do séc. XVII, Spinoza, filho de judeus refugiados em Castelo de Vide.

Na Rua do Arcário, a primeira casa terá vivido a “abafadeira”. Ou seja, a parteira que tanto dava vida como a tirava…

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O CASTELO ONDE RESIDE SALGUEIRO MAIA

Um pouco mais acima, está a entrada nas muralhas do castelo, que dá acesso ao burgo medieval. Se seguir em frente ou pela direita, encontra o labirinto de ruas estreitas e casinhas de outrora, onde ainda vive gente. Encontra ainda a antiga prisão, a igreja e outros edifícios que fizeram parte da vida medieval. Afinal, esta fortificação existe desde o século XIII.

Por outro lado, se seguir pela esquerda, logo na entrada da muralha, vai entrar no recinto do próprio castelo. Lá dentro, duas torres bem conservadas convidam-nos a uma visita.

Na torre principal, a autarquia criou a Casa da Cidadania Salgueiro Maia. Por testamento, o herói da revolução de abril deixou boa parte do seu espólio à cidade, para fins culturais. Por essa razão, neste espaço museológico recente encontramos documentos, fotografias, e muitos objetos pessoais e até coleções deste filho da terra. Sem dúvida, uma forma fácil de conhecermos a vida deste militar, que nasceu e foi sepultado em Castelo de Vide.

Na outra torre, mais baixa e circular, uma sala de exposições alberga mostras temporárias. Quando visitámos o espaço, vimos uma exposição de Alfredo Cunha, conhecido como o fotógrafo do 25 de abril. Por último, entre as duas torres há uma escada de metal, que dá acesso à sala superior do torreão. Mais do que isso, se continuar a subir vai ter ao terraço, entre as ameias, onde a vista é simplesmente soberba.

À data da nossa visita, todas as entradas são gratuitas.

A NÃO PERDER EM CASTELO DE VIDE

Burgo medieval de Castelo de Vide

Há vida dentro das muralhas do castelo

Casa da Cidadania Salgueiro Maia

A herança do capitão de abril

Torre do castelo

Um varandim de ameias e uma vista fantástica

Sinagoga medieval

Uma viagem ao passado judaico

Calçada medieval

Um caminho de outros tempos

Forte e Igreja de São Roque

Uma fortificação com vista sobre a cidade

CRISTÃOS POR FORA, JUDEUS POR DENTRO

No século XIV, os primeiros judeus chegaram a Castelo de Vide. De início, a integração foi pacífica, e esta população entrou naturalmente no modo de vida da cidade. Assim sendo, tinham os seus negócios e praticavam o seu culto.

Contudo, em 1492, os reis católicos deram ordem de expulsão a todos os judeus em Espanha.

Na altura, o rei português, D. João II, permitiu a sua entrada temporária em Portugal, Por essa razão, muitas terras, sobretudo fronteiriças, tornaram-se autênticos campos de refugiados.

Com efeito, foi este o caso de Castelo de Vide, que praticamente quintuplicou a sua população.

No entanto, pouco tempo depois, D. João II iniciou também uma perseguição aos judeus. Inclusivamente, muitas crianças foram retiradas às famílias e enviadas para a ilha de São Tomé, que precisava de colonos. Sem cuidados e à mercê dos crocodilos, muitas acabaram por morrer.

D. MANUEL, CRISTÃOS NOVOS E CRIPTOJUDEUS

Com a morte de D. João II, foi o sobrinho, D. Manuel, quem subiu ao trono. Por força das circunstâncias, também ele viria a dar ordem de expulsão aos judeus. Na origem desta expulsão, esteve uma imposição dos futuros sogros, os reis católicos de Espanha. Com efeito, impuseram esta condição para o casamento com a filha, Isabel de Aragão.

Deste modo, os judeus eram também expulsos de Portugal. Em consequência, muitos fugiram do país.

No entanto, D. Manuel previu uma alternativa para que ficassem: converterem-se à fé católica. Tornavam-se, assim, Cristãos Novos. Ao recusarem, seriam perseguidos, forçados à conversão ou escravizados. A par disso, na Páscoa de 1497, os filhos foram-lhes retirados, e entregues a famílias cristãs. Em desespero, muitos judeus preferiram o suicídio, e mataram, eles próprios, os filhos.

Contudo, pouco tempo depois, os judeus que ficaram conseguiram do rei duas importantes cedências. Por um lado, D. Manuel concordou com a restituição dos filhos destas famílias. Por outro lado, decretou que, durante 20 anos, não ordenaria qualquer inquérito sobre as suas práticas religiosas. Deste modo, D. Manuel abriu caminho ao criptojudaísmo, um fenómeno característico de Portugal.

Em suma, uma parte da população judaica aceitou converter-se ao cristianismo. Pelo menos, aparentemente. Em privado, mantinham a fé no deus de Israel. Ou seja, eram cristãos por fora, mas judeus por dentro.