A descoberta do judaísmo secreto em Belmonte

OS JUDEUS QUE ACREDITAVAM SER OS ÚLTIMOS DO MUNDO

Belmonte tem uma história única para contar, porque foi aqui que um judeu polaco touxe à luz do dia o facto de existirem em Portugal criptojudeus. Ou seja, judeus que, durante séculos, mantiveram o seu culto escondido, e já muito deturpado dos preceitos originais. Em plena Beira Baixa, a meio caminho entre a Guarda e Castelo Branco, Belmonte atrai as comunidades judaicas de todo o mundo. Há quem venha em busca das suas origens, e quem queira conhecer melhor a história deste povo, que é contada no Museu de Belmonte e em cada recanto desta bonita vila da Cova da Beira.

BELMONTE, UM DESTINO JUDAICO MUNDIAL

Em vilas como Belmonte, Trancoso ou Castelo de Vide, há muitos séculos que as comunidades judaicas são uma parte integrante da história, da arquitetura e da vida quotidiana.

Aproveitando esta riqueza histórica, o Turismo de Portugal já promove estes destinos de tradição judaica no estrangeiro. Surgiram novas ligações aéreas entre Portugal e Israel, e a hotelaria e o comércio destes locais adaptam-se às exigências destes turistas, inclusive nos preceitos kosher. Afinal,  em apenas uma década, houve um aumento de 2000% (!) nos visitantes judeus a Portugal: em 2017, eram já 105 mil.

Apesar das perseguições que Portugal e Espanha moveram contra este povo no século XV, os judeus encontraram em diversas localidades portuguesas um reduto de segurança. Tornaram-se falsos cristãos novos, mantendo em segredo os seus cultos religiosos. No entanto, entre todas as localidades com tradição judaica, Belmonte mantêm um estatuto especial. Neste artigo, explicamos-lhe porquê.

A VILA ONDE SE DESVENDOU O CRIPTOJUDAÍSMO

No século XV, a Península Ibérica era o centro do judaísmo mundial. Por isso, muitas famílias que estão hoje espalhadas pelo mundo procuram, e por vezes encontram, aqui as suas raízes ancestrais.

No entanto, entre as muitas localidades portuguesas que, ao longo da história, concentraram comunidades judaicas, Belmonte distingue-se das restantes. Afinal, foi aqui que se desvendou a existência de criptojudeus, ou seja, judeus que durante séculos praticaram o seu culto de forma secreta. Mantiveram-se de tal forma isolados que, no início do século XX, acreditavam ser a única comunidade do mundo a manter ainda a religião de Moisés. Até que um judeu polaco trouxe o judaísmo secreto à luz do dia. Belmonte mantém, por isso, em Portugal e no mundo, um estatuto especial. Continue a ler, para conhecer esta história invulgar.

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PERSEGUIÇÕES E CONVERSÕES FORÇADAS

No final do século XV, o rei português D. Manuel I estava prestes a casar com a filha dos reis católicos de Espanha. Estes tinham expulsado os judeus do seu território em 1492, e D. João II recebe-os, mas retira as crianças às famílias para irem repovoar a inóspita ilha de São Tomé. Muitas viriam a morrer.

Quando o seu sucessor, D. Manuel I, está prestes a casar com a filha dos reis de Espanha, o contrato de casamento implica que também Portugal expulse os judeus do seu território.

D. Manuel avançou, de facto, com a expulsão a 5 de dezembro de 1496, ordenando que judeus e muçulmanos saíssem de Portugal ou, como alternativa, se convertessem ao cristianismo, tornando-se «cristãos-novos».

A prática judaica foi, assim, proibida mas, ao mesmo tempo, era também impedida a saída dos cristãos-novos do reino. O objetivo do rei português era, por um lado, agradar aos futuros sogros e, por outro, manter esta comunidade – e as suas riquezas – em território nacional.

A solução de forçar os judeus à conversão, adotada por D. Manuel, era aparentemente pacífica, até porque os equiparava, em termos legais, aos cristãos mas, fiéis à sua fé, muitos judeus preferiram o suicídio, e a morte dos filhos, à conversão religiosa.

Muitos judeus concordaram em converter-se ao catolicismo, pedindo ao rei, em troca, a restituição dos filhos. Adicionalmente, foi também pedido que, durante 20 anos, não houvesse inquirições à sua prática religiosa.

D. Manuel acedeu a estas condições e com isso. na prática, abriu caminho a um fenómeno que se instalou em Portugal: o criptojudaísmo, ou o judaísmo secreto. Para preservarem as suas vidas, muitos judeus faziam aparentes conversões, mas mantinham em privado o seu culto original.

AS TENSÕES SOCIAIS E A INQUISIÇÃO

Com efeito, o país lidava com sérios problemas, de peste negra e pobreza. Conjugados com o favorecimento que o rei dava aos judeus, dá-se uma escalada das tensões sociais. Assim, um dos momentos mais dramáticos da nossa história aconteceu na Páscoa de 1506. quando um linchamento popular incitado por um representante da igreja resultou no massacre de milhares de cristãos-novos.

Os corpos seriam empilhados e queimados em pleno Largo de São Domingos. Apenas ao fim de vários dias as tropas do rei conseguiram travar a fúria da populaça.

Em 1536, a Inquisição instala-se em Portugal e seguem-se 225 anos de terror anti-judaico, com acusações, autos de fé e tribunais do Santo Oficio.

Os bens das vítimas eram confiscados pelo Tribunal do Santo Ofício, que assim se financiava. A intolerância e o fanatismo estão disseminados, e a fé judaica tinha mesmo de ser escondida.

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«Exteriormente viviam como cristãos. Iam à Igreja, batizavam os filhos, casavam-se e enterravam os seus mortos conforme a lei cristã. Mas na intimidade e nas suas casas continuavam a ser o que sempre tinham sido». José Augusto Canelo, em Belmonte, judaísmo e criptojudaísmo.

O CULTO SECRETO RNRAIZADO EM PORTUGAL

O Prof. David Augusto Canelo explica, no livro «Belmonte, judaísmo e criptojudaísmo» (Edição Câmara Municipal de Belmonte) que «exteriormente viviam como cristãos. Iam à igreja, batizavam os filhos, casavam-se e enterravam os seus mortos conforme a lei cristã. Mas na intimidade e nas suas casas continuavam a ser o que sempre tinham sido».

À luz dos preceitos judaicos, estas falsas conversões contavam com o aval da lei divina e dos rabinos. O autor explica que, de acordo com a doutrina, «os judeus tinham direito a salvar a vida por qualquer meio, excetuando o incesto, a idolatria e o assassinato.» Desta forma, o criptojudaísmo, ou judaísmo oculto, manteve-se enraizado nos séculos seguintes, um pouco por todo o país.

A tensão religiosa atenuou-se no século XVIII, quando o Marquês de Pombal determinou o fim das leis da «pureza de sangue» e da distinção entre cristãos-velhos e novos. No século seguinte, as perseguições findaram com a extinção da Inquisição, em 1821.

O JUDEU POLACO QUE DESVENDOU O SEGREDO

Samuel Schwarz, um engenheiro polaco, chegou a Belmonte em 1917 para dirigir uma exploração mineira. Ao enraizar-se na comunidade local, apercebeu-se de que existia ali uma comunidade judaica que, em pleno século XX, mantinha em segredo a sua religião.

Longe iam os tempos das perseguições, e o que Schwarz apurou era espantoso: a pouca mobilidade geográfica daquelas pessoas distanciara-as do que se passava nas restantes comunidades judaicas. Mais do que isso, os preceitos religiosos, transmitidos de geração em geração, eram já muito diferentes dos originais.

Schwarz chamou a atenção do mundo para o caso único de Belmonte: o criptojudaísmo persistia e esta população, isolada, acreditava ser a última do mundo a praticar ainda a religião de Moisés.

Para sua surpresa, deparara com uma comunidade que desconhecia a existência de outros judeus e que estranhava encontrar um judeu que não escondesse a sua fé. A comunidade judaica de Belmonte desconhecia ainda a distinção entre cristãos-novos e velhos, bem como a existência da língua hebraica e das orações originais nesta língua.

Há muito que este conhecimento se havia perdido no tempo, e rezavam em português. Casavam-se entre si, mantinham um culto que aos poucos se foi «aportuguesando», e que acabou por perder os preceitos originais.

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ADONAI, A PALAVRA SAGRADA

Ao tentar comprovar a veracidade da sua fé, a dada altura Schwarz recitou para as anciãs da comunidade de Belmonte a oração Shemah Israel, considerada a base da religião dos judeus. As mulheres reconheceram a palavra sagrada, Adonai (o nome de Deus em hebraico), e deixaram-se convencer de que estavam perante um judeu. Perceberam que a sua comunidade não era a única que restava, que havia um culto e uma língua originais que se tinha perdido em Belmonte há muitas gerações.

Durante cerca de oito anos, o engenheiro polaco viria a reunir material sobre os judeus de Belmonte. Recolheu, inclusive, inúmeras orações usadas na altura, mas já transformadas pelo tempo e pelo secretismo. Eram ditas em português e não em hebraico, e substancialmente diferentes das originais.

Conforme explica David Augusto Canelo, tantos séculos de clandestinidade haviam levado os criptojudeus «a esquecerem, a adulterarem, a inventarem rituais e orações pois não havia sinagogas nem tradições escritas que servissem como guia de regras orientadoras.»

O resultado das pesquisas de Schwartz foi publicado em 1925, no livro Os Cristãos Novos em Portugal no Século XXe teve grande impacto a nível internacional, chamando a atenção do mundo judaico para Belmonte.

No ano seguinte, foi mesmo enviado ao nosso país um representante da Anglo Jewish Association e da Alliance Israelite Universelle, o jornalista e diplomata inglês Lucien Wolf, com a missão de avaliar a questão. Deveria ainda produzir um relatório que confirmasse o que era revelado no livro de Schwartz.

Oração para depois das abluções matinais:

Da minha cama me levantei
as minhas mãos lavei
com a minha alma
e com a minha vida
ao Senhor louvarei. 
Louvarei neste dia
com grande atento, 
o Senhor me livre 
do mau tino
e do mau pensamento.
Ámen, Senhor, ao céu vá, ao céu chegue!

Oração citada em «Belmonte, judaísmo e criptojudaísmo» de José Augusto Canelo.

 

O REENCONTRO DOS CRIPTOJUDEUS PORTUGUESES COM A FÉ ORIGINAL

Além da comunidade de Belmonte, existiam em Portugal outras comunidades de criptojudeus que mantiveram os seus costumes próprios, também eles já distantes dos originais.

Nos anos 30, um capitão do exército nortenho, Barros Basto, de origem judaica, quis resgatar os marranos portugueses, aproximando-os do culto original hebraico, e conseguiu mobilizar apoios nacionais e internacionais para esta causa. No entanto, conforme explica o Prof. Augusto Canelo, «poucos foram os que aderiram à obra de resgate.»

«Esta sociedade criptojudia de alguns milhares de pessoas não podia aceitar uma mudança turbulenta, que substituísse radicalmente a casa familiar de piedosa assembleia religiosa pela sinagoga, desconhecida e estranha aos seus olhos; não podia aceitar alguma substituição das festas e cerimónias tradicionais, que muitas vezes incluíam formas católicas, por outras completamente ignoradas; não podia aceitar a mudança  das tradicionais orações ditas em língua portuguesa e conhecidas pela boca dos avós por orações diferentes e um dia talvez ditas em língua hebraica.»

A juntar a esta reserva em alterar a tradição religiosa que há séculos fazia parte das suas vidas, desentendimentos e disputas no seio da organização criada por Barros Basto acabaram por deitar o projeto por terra, após a construção da sinagoga do Porto, em 1938.

COMUNIDADES JUDAICAS EMBLEMÁTICAS EM PORTUGAL

Hoje em dia, existem comunidades judaicas implementadas em Portugal, nomeadamente em Lisboa, Porto, Trancoso, Castelo de Vide e claro, Belmonte, o ex libris do criptojudaísmo em Portugal, que ganhou fama internacional graças a Samuel Schwarz.

Em consequência, o reencontro destes criptojudeus com a fé original viria a acontecer através de crescentes contactos com as restantes comunidades que professam a fé de Moisés. Sobretudo a partir de 1988, com a criação da Associação Judaica de Belmonte.

No ano seguinte, passou a chamar-se Comunidade Judaica de Belmonte. Entre os seus objetivos, contam-se o regresso às tradições judaicas originais, que os criptojudeus haviam perdido ao longo dos séculos.

A Sinagoga Bet Eliahu, em Belmonte, foi inaugurada em 1996. Hoje em dia, o culto já não precisa de ser escondido, muito pelo contrário: é um dos muitos motivos que trazem a Belmonte judeus de todo o mundo.

O criptojudaísmo é, ainda hoje, bem visível em Belmonte: na arquitetura da judiaria do centro histórico, nas marcas das paredes, no interior das casas, nas histórias das famílias, na moderna sinagoga e, claro, no Museu Judaico que relata a história do povo judaico.

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UM POVO DESDE SEMPRE PERSEGUIDO

Conforme refere o Prof. David Augusto Canelo no já citado livro Belmonte, judaísmo e criptojudaísmo, «desde que existem judeus existem cripotojudeus».

De facto, assim tem sido, desde a rainha bíblica da Pérsia, Ester, que escondia a sua fé do marido, até ao antisemitismo nazi do século XX.

Ao longo dos séculos, a expansão do Cristianismo na Europa, com o seu proselitismo e intolerância a outras religiões, levou a medidas drásticas de expulsão deste povo de vários países: em 1209 de Inglaterra, em 1306 e 1394 de França, em 1350 da Alemanha, de Espanha em 1492.

Na península Itálica, as expulsões aconteceram por iniciativa dos Bourbons que reinavam no sul, e do próprio Papa. Já no século XX, o Holocausto levou a um extremo impensável as perseguições a esta comunidade religiosa e, desde então, o judaísmo tem vindo a reconquistar o seu devido lugar no mundo.

Em Portugal, desde 2015 que os descendentes de judeus sefarditas portugueses podem pedir a nacionalidade perdida com as expulsões nos séculos XV e XVI. Em 2019, eram já 45 mil as pessoas que decidiram recuperar a sua origem portuguesa. Se é o seu caso, saiba aqui quais os requisitos.

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